terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Matisyahu explica por quê fez a barba

Depois da repercussão que teve o fato de se barbear em dezembro último, o cantor de reggae e rapper judeu ortodoxo Matisyahu se viu na necessidade de ter que explicar ao mundo e especialmente aos seus fãs o que significou aquele gesto. Deu, então, uma entrevista à rádio novaiorquina WNYC, onde expôs as suas razões. Primeiramente, Matisyahu disse que não é pelo fato de tirar a barba que ele deixou de ser judeu e relata que, no dia seguinte ao fato, continuou fazendo suas obrigações religiosas da mesma maneira em que fazia antes. O radialista então lhe pergunta por que razão ele tinha deixado crescer a barba, e o que o havia levado a eliminá-la depois de tanto tempo. O cantor responde dizendo que começou a deixar a barba crescer quando tinha de 20 para 21 anos de idade, período em que mergulhou de cabeça na religiosidade judaica, passando a usar ostensivamente não somente o aspecto facial mas as roupas e o chapéu que caracterizam os judeus ortodoxos hassídicos, e ser visto como tal no metrô, por exemplo, o deixava contente, num claro contraste, digamos, "estético" com aquele garoto de 17 anos que ele havia sido um dia, que adorava reggae, Bob Marley e queria fazer dreadlocks no cabelo, mas em ambas as situações a representação externa de sua personalidade tinha muito a ver com o que se passava dentro dele. A razão, entretanto, para que ele não mais se barbeasse a partir de então é mais complexa. Matisyahu se justifica dizendo que, pela cabala (misticismo judaico que faz a cabeça de Madonna, por exemplo), a barba representa os 13 atributos de misericórdia de Deus, e tudo o que está acima (na divindade) é conectado com o que está embaixo (no mundo), como se fosse um espelho em que esses atributos estão se "checando" um ao outro constantemente. Desta maneira, a barba seria - para a cultura hassídica - um símbolo e uma manifestação da misericórdia divina aqui na Terra. Os 13 atributos da misericórdia de Deus estariam, então, diretamente ligados às 13 partes da face, e desses atributos ligados à barba decorreriam as bênçãos de Deus na vida da pessoa que a porta. Matisyahu confessa, então, que tinha medo de que perderia essas bênçãos se - por qualquer razão - raspasse a sua barba. A seguir, conta que passou por algumas semanas de profunda transformação espiritual, como nunca havia experimentado em sua vida, antes de tomar a decisão de - finalmente - se barbear. Concluiu, assim, nas suas próprias palavras, de que "os temores que eu tinha... a ideia de que a misericórdia de Deus está ligada ao fato de eu me barbear (ou não) é ridícula... se eu merecer a misericórdia de Deus, eu a terei, independentemente da minha barba". Matisyahu se alegrou com o comentário de um fã que disse que nenhuma outra pessoa da sua geração consegue falar para judeus ortodoxos, nominais ou mesmo não-judeus como ele faz, e - com aquela voz mansa que o caracteriza - disse que isso o deixa muito feliz e o faz renovar a sua fé na humanidade, com tanto ódio que divide as pessoas, mas ele consegue se comunicar com uma legião de admiradores em paz. Por fim, já no segundo vídeo abaixo, indagado se não há contradição entre se apresentar de forma tão religiosa de um lado, mas estar agora com a barba feita e gostar de coisas "mundanas" (ele é torcedor do New York Giants, que acabou de ganhar o SuperBowl de futebol americano) do outro, Matisyahu se defende dizendo que "no mundo tudo é contradição. Tudo tem múltiplos lados. Nós vamos muito rápido à definição do que é preto ou branco, classificando-os em gavetas... o mundo é uma mistura de coisas diferentes". De qualquer maneira, o que seus fãs (entre os quais me incluo) esperam, Matisyahu, é que sua barba não seja o que o cabelo foi para Sansão, e que você continue alegrando muita gente com o seu talento, a sua fé e a sua simplicidade. Por isso mesmo, esperamos que Matisyahu nunca venha a fazer propaganda de nenhuma lâmina de barbear... (é que no caso evangélico brasileiro, tem "pastor" que fez o bigode e esqueceu tudo o que pregava antes...)





P.S.: os dados cabalísticos que Matisyahu apresenta na entrevista acima, especialmente sobre o número 13, são muitos complexos de serem explicados, fazem o gênero "mistério que não se revela aos iniciados" e este que vos escreve não tem capacidade nem interesse de entendê-los. Para os que quiserem se aprofundar no tema, a relação da barba com os 13 atributos da misericórdia de Deus está ensinada no Zohar, livro sagrado da cabala judaica, composto pelo rabino Shimon, especificamente no capítulo XI, preceitos de 209 a 232, que podem ser lidos em inglês clicando aqui. Leia, entretanto, por sua conta e risco, mas interprete com a ajuda de quem entenda do assunto, o que não é o meu caso, já que não estou nem um pouco interessado em numerologia e deixo a cabala aos cabalísticos, com todo respeito.



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Uma estranha briga de vizinhos

A história já é antiga, mas continua soando bizarra. Aconteceu em 2006, na região de Salt Lake Valley, mais especificamente na pequena cidade chamada Riverton (Utah), nos Estados Unidos. Ao construir sua nova casa numa colina, Darren Wood fez algumas escavações que preocuparam seus vizinhos, Stan Torgensen e Mark Easton, que imediatamente pediram à prefeitura local que interviesse e requeresse uma análise de solo para garantir a segurança das edificações circunvizinhas. O estudo foi feito, mas adiou as obras em 4 meses e acrescentou 3.000 dólares ao orçamento de Wood. A construção teve seguimento, e os vizinhos repararam que a casa estava sendo construída num padrão bem mais alto do que o permitido por ali, e a bela vista das montanhas que eles tinham estava ameaçada. Novamente os vizinhos acionaram a prefeitura, denunciando a infração ao código local de obras, e Wood teve que fazer as mudanças necessárias, estourando ainda mais o seu orçamento. Aí, para surpresa de seus vizinhos, a parede da casa que eles veem quando tentam olhar para as montanhas ganhou uma janela inusitada, em forma de uma mão fechada com o dedo médio ereto, que é um gesto ofensivo tanto nos Estados Unidos como em quase todo o mundo. Nova reclamação foi feita aos órgãos competentes, mas aí a prefeitura já não pode mais fazer nada, já que não há qualquer restrição quanto à forma das construções. Wood se defendeu (cinicamente, convenhamos) dizendo que se tratava de "arte abstrata", mas os estragos na política de boa vizinhança já estavam irremediavelmente feitos. Não se sabe o que aconteceu depois, afinal quase 6 anos se passaram desde o imbroglio. Apesar do fato ter ocorrido no Estado - majoritariamente mórmon - de Utah, a gente fica com aquele ditado italiano na cabeça: "la vendeta è un piatto che se mangia freddo" ("a vingança é um prato que se come frio". Confira as fotos de mais uma encrenca entre vizinhos no mundo:





Fonte: The Salt Lake Tribune



Eddie Long, de pastor suspeito de pedofilia a rei do universo





Poder, sexo e dinheiro. Dizem que essas três coisas movem o mundo. No caso do pastor Eddie Long, da Igreja Batista Missionária do Novo Nascimento, mais uma das muitas mega-igrejas norteamericanas, essa localizada na área metropolitana de Atlanta, capital da Georgia, parece que está fazendo de tudo para saber se a sabedoria popular se confirma. Apesar da proximidade com o ex-presidente George W. Bush (foto acima), ele já foi investigado pelo Senado dos Estados Unidos em 2007, juntamente com Benny Hinn e Joyce Meyer, entre outros, por suspeita de enriquecimento ilícito. Em 2010, três rapazes que haviam frequentado sua igreja o acusaram de pedofilia, de tê-los seduzido e forçado a ter relações sexuais com ele quando os três ainda eram menores de idade. Foi daí que vieram a público as fotos narcisistas abaixo, em que Long se fotografa no espelho exibindo seus dotes físicos. O escândalo tomou proporções ainda maiores porque Eddie Long sempre foi (mais) um dos pastores norteamericanos que mais pregavam contra o homossexualismo, e o caso teve uma enorme repercussão. Segundo a denúncia dos jovens, à qual se juntou um quarto rapaz de Charlotte, Carolina do Norte, Long empregava os rapazes na folha de pagamento da igreja, e os cobria de presentes que variavam de roupas de grife a carros, além de levá-los como companhia exclusiva em viagens (muito) prazerosas ao redor do mundo. As partes envolvidas terminaram fazendo um acordo $ecreto fora dos tribunais, na base do "abafa!" mesmo, o que evitou que as denúncias fossem cabalmente apuradas. Long, então, fez um retorno supostamente humilde, mas triunfal, ao púlpito de sua igreja, bem no estilo de tantos outros "pastores" que são pegos com a boca na botija ou dólares na Bíblia: se dizem perseguidos, vilipendiados, etc., mas nunca tocam diretamente nas denúncias que os levaram àquela situação. A culpa é sempre dos outros, o que não deixa de ter um fundo de verdade, já que são "outros" que confiam cegamente neles e sustentam o hedonismo caríssimo de suas vidas nababescas. Suspeito, entretanto, que o inferno esteja cheio de meias-verdades...





Agora, o blog do Cristiano Santana trouxe à baila um vídeo (que segue abaixo), em que Long é "entronizado" dentro da sua igreja por um pregador judeu-messiânico (sósia do Mike Murdoch do Malafaia, por sinal), que lhe dá a Torah, o livro sagrado judaico, para apresentá-lo como uma espécie de "rei do universo", do qual procedem bênçãos e juízos sobre tudo e todos, ou seja, uma versão gospel turbinada de "deus de Atlanta da prosperidade". O tal "rabino" diz ainda que o pergaminho da Torah teria a idade de 312 anos e havia sido resgatado do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Para eles não basta profanar a religião dos outros, é preciso detonar também com o holocausto perpetrado pelos nazistas. Cá entre nós, chega a ser inacreditável que tanta gente se deixe levar por esses delírios. Mas nem o alto potencial do autoengano coletivo justifica. Tirando o risível sofrimento de seus súditos tendo que carregá-lo no trono (Long anda meio pesado ultimamente), é mais um daqueles espetáculos grotescos que muitos evangélicos fazem hoje em dia, infelizmente, apenas para desonrar o evangelho que dizem pregar. Se há alguma coisa boa nisso, é que fica cada vez mais fácil e claro identificar quem NÃO é cristão. A cena esdrúxula provocou reação também da comunidade judaica norteamericana, que - com toda a razão - viu no uso da Torah nessa, com o perdão da palavra, "palhaçada" uma profanação do seu culto. O próprio Eddie Long, segundo noticia a CNN, já tratou de pedir desculpas aos judeus pela imbecilidade que patrocionou. Isto faz girar o holofote também nos tais "judeus messiânicos", que têm lugar de honra hoje em muitas igrejas supostamente cristãs que adotam - cada dia mais - práticas judaizantes. Eu sempre me lembro do que o rabino Henry Sobel disse certa vez a respeito deles: "não são judeus nem cristãos, e desonram ambas as religiões". Aliás, eles têm todo o direito de acreditar no que quiserem, mas daí a levá-los ao altar como cristãos verdadeiros para entronizar um pastor com esse currículo vai uma longa distância. É triste ver como o nome de Deus e a Bíblia (no caso, a Torah) são vergonhosamente utilizados nesses surtos megalomaníacos. Não devemos nos surpreender, entretanto. Jesus já alertava que "levantar-se-ão muitos falsos profetas e enganarão a muitos. E, por se multiplicar a iniquidade, o amor se esfriará de quase todos" (Mateus 24:11-12). A terrível constatação de que restam poucos cristãos verdadeiros no mundo, apesar dos milhões que dizem professar a "fé na fé", deve ser motivo para que levantemos nossa voz e cantemos "Maranata, volta logo Senhor Jesus"!




domingo, 5 de fevereiro de 2012

Jerusalém em 3D vai para as telonas em 2013





Pelo menos é este o projeto da produtora Arcane/Cosmic, que pretende lançar um filme-espetáculo com imagens em 3D da Cidade Santa, e isto no formato IMAX, aquelas telas gigantes em que não se perde a qualidade do que é mostrado, ou seja, bota espetáculo nisso! A julgar pelas primeiras imagens, você nunca mais precisará sequer pensar em acompanhar "bispos" e "apóstolos" em suas centenas de viagens a Israel pra dizer que conhece a Terra Santa, o que - em muitos casos - é uma garantia de que a sua fé não será violentada. Diversão e emoções garantidas no lançamento mundial previsto para 2013. Confira mais detalhes no sítio do filme e deguste o vídeo abaixo:





Fidel Castro se reconverteria na visita do papa a Cuba

Bomba! Bomba! Bomba! A se confirmar a notícia publicada no conceituado jornal italiano La Reppublica na última quarta-feira, dia 1º de fevereiro, tanto o mundo ateu como o religioso receberá um golpe difícil de assimilar por ocasião da visita do papa Bento XVI a Cuba em fins do próximo mês de março. É que ninguém mais ninguém menos do que Fidel Castro, ícone do movimento comunista, ateu e latinoamericano aproveitaria a oportunidade para se reconciliar com a Igreja Católica, da qual foi excomungado 50 anos atrás - em 3 de janeiro de 1962 - pelo papa João XXIII, naqueles tempos conturbados do auge da Guerra Fria entre o mundo de órbita norteamericana e seu adversário de órbita soviética. Maus tempos aqueles...

Bem, mas voltando à notícia do La Reppublica (cuja estampa pode ser vista clicando aqui), segundo o jornal italiano apurou, nem o Vaticano nem os familiares, em especial sua filha Alina, conseguem mais esconder o segredo que estaria - até aqui - guardado a sete chaves, de que Fidel Castro se reconverteria à fé católica por ocasião da visita do papa a Cuba. A própria Alina teria dito que "nos últimos tempos, Fidel Castro se reaproximou da religião: redescobriu Jesus às portas da morte. Isto não me surpreende porque papai foi educado por jesuítas". Indagada ainda se essa "reconversão" não seria resultado do medo da morte, Alina contesta dizendo que "não sei se devemos chamar isso de medo. Mas estou convencida de que, hoje, ele esteja mais interessado no destino da sua alma do que no futuro de Cuba". A agenda do papa para a visita ao México e Cuba entre os dias 23 e 29 de março também foi divulgada nesta semana, e a visita protocolar do papa a Raúl Castro, irmão de Fidel e atual presidente de Cuba, que acontecerá no dia 27 às 17:30 h, poderá ser o momento em que o papa se encontrará com Fidel Castro. Embora o encontro não esteja previsto, a animadíssima Secretaria de Estado do Vaticano já se adiantou dizendo que não haverá problema algum para que ele ocorra. Com relação à excomunhão de 1962, as autoridades diplomáticas hoje a relevam e dizem que ela era praticamente automática a quem professava o comunismo naquela época, e garante que a Igreja Católica está pronta a receber de volta o filho cubano pródigo se ele quiser voltar para a casa romana. E então? Fidel Castro volta ou não volta? "Não sabemos" - dizem as fontes vaticanas - "No momento extremo, a morte deixa todo mundo com medo. Se Fidel quiser dizer qualquer coisa a propósito ao santo padre, Sua Santidade estará pronto a escutá-lo. Mas essas são coisas que também podem ser confessadas a um sacerdote jovem que vá encontrá-lo e ele também estará de prontidão". A Igreja Católica de Cuba tem o respeito do governo comunista da ilha não só por seus serviços sociais, mas principalmente por ter sido uma boa e confiável mediadora com dissidentes internos, países e organizações internacionais, nesses tempos de profunda crise política e econômica. É um ator fundamental no jogo político cubano atual. Marco Ansaldo finaliza o seu artigo no La Reppublica dizendo:
"Faz pouco tempo que Fidel Castro completou 85 anos de vida. Joseph Ratzinger completará a mesma idade no próximo mês de abril. Os perfis do revolucionário latinoamericano e do papa bávaro são distantes. Mas talvez a própria troca de palavras e olhares entre eles poderá valer, para Cuba e para o Vaticano, toda a viagem. Tentação incluída."



sábado, 4 de fevereiro de 2012

Advogado aprendendo a cobrar honorários



Essa é para os nobres colegas aprenderem como cobrar seus (raramente) polpudos honorários...



Fonte: Judson Maria



O evangelho macho de Driscoll e Piper

Alguma coisa estranha anda acontecendo nas igrejas evangélicas dos Estados Unidos. Existe uma certa, digamos, "masculinização" do evangelho no ar e o cheiro parece não ser agradável. Mark Driscoll já vinha provocando polêmicas com sua insistência na testosterona gospel, como quando elogiou a beleza máscula e "pura" de lutadores (suados e ensanguentados) de MMA no octógono e ridicularizou líderes de louvor afeminados, conforme já escrevemos aqui no texto "O bullying afeminado de Mark Driscoll", numa declaração - no mínimo - fora de propósito. Que Driscoll dê umas bolas fora de vez em quando, isso a gente já está lamentavelmente acostumado. Agora, para nossa surpresa, a bola de vez é o respeitabilíssimo pastor John Piper, de quem se pode discordar eventualmente numa ou outra ênfase de sua pregação, mas em geral ela é bem exposta e calcada na Bíblia, de maneira que fica difícil refutá-la. Entretanto, na última terça-feira, dia 31 de janeiro, durante a conferência anual de pastores patrocinada por sua organização "Desiring God", Piper entrou por uma seara que, se não era exatamente nova na sua pregação, teve suas implicações largamente expandidas. Segundo o renomado pastor, a intenção de Deus para o cristianismo é que ele tenha uma "sensação masculina", já que "Deus se revelou a Si mesmo na Bíblia penetrantemente como rei e não rainha; pai e não mãe (...) a Segunda Pessoa da Trindade é revelada como o Filho eterno e não a filha; o Pai e o Filho criaram homem e mulher à sua imagem e deram a eles o nome de homem, o nome do macho". Continua Piper: "Deus apontou todos os sacerdotes do Velho Testamento como sendo homens; o Filho de Deus veio ao mundo para ser um homem; Ele escolheu 12 homens para ser Seus apóstolos; os apóstolos apontaram que os cuidadores da Igreja deveriam ser homens; e com respeito ao casamento eles ensinaram que o marido deveria ser a cabeça. Portanto, de tudo isso eu concluo que Deus deu ao cristianismo uma sensação masculina. E sendo Deus um Deus de amor, Ele fez isso para o nosso máximo deleite, tanto machos como fêmeas". A conferência já havia sido aberta por Piper, na segunda à noite, com o tema "Deus, Masculinidade e Ministério - Construindo Homens para o Corpo de Cristo", com um apelo tanto à masculinidade como a paternidade que seriam os dois principais assuntos abordados durante sua preleção.

De fato, o tema masculinidade associado à paternidade não é novo no mundo evangélico, embora saia de cena por longos períodos. Daí podemos concluir que é perfeitamente compreensível e louvável a iniciativa de John Piper em trazer de novo esse assunto à baila. O que talvez possa ser criticado é se a ênfase na masculinidade não ultrapassou os limites do razoável, e mesmo que Piper seja um ícone (no bom sentido da palavra) dos bons pregadores cristãos que ainda restam no mundo, parece que ele forçou um pouco a mão no cozido que pretendia fazer (macho também cozinha, gente!). Primeiro, por que o subtema "Construindo Homens para o Corpo de Cristo" e não "para a Noiva de Cristo", como a Igreja é - repetida e femininamente - chamada no Novo Testamento, em especial no Apocalipse? Claro que a Igreja é apresentada como o masculino Corpo de Cristo, mas também como a Noiva. Afinal, não existe universo mais exclusivamente feminino - que perpassou e transcendeu culturas e gerações - do que o da "noiva". Curioso que o próprio Jesus se refere a Si próprio como Deus numa referência também bastante feminina e, digamos, "ecológica", ao chorar sobre Jerusalém clamando: "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!" (Mateus 23:37 e Lucas 13:34). É no mínimo inacreditável, portanto, que Piper tenha se esquecido dessas duas alegorias tão importantes e femininas. Isto para não citar outras tantas passagens bíblicas onde as mulheres são reverenciadas, nem entrar no tema "Maria, Mãe de Deus" para evitar frissons anticatólicos. É forçoso reconhecer, também, que o conhecido pastor procurou minimizar a masculinização pregada, dizendo que "Deus não quer que as mulheres se sintam frustradas ou de qualquer maneira sofram ou não desfrutem de gozo pleno e duradouro nesse cristianismo masculino (...) pelo que posso inferir que o mais completo deleite de mulheres e homens acontece em igrejas e famílias que têm essa sensação masculina". Sabendo de antemão das controvérsias que sua pregação causaria, ele já apresentou também sua defesa: "Quando eu digo 'cristianismo masculino' ou 'ministério masculino' com uma sensação masculina, aqui está o que eu quero dizer: a teologia, a igreja e a missão são marcadas por uma supremacia divina de liderança masculina no espírito de Cristo com um ethos de força e ternura, coragem contrita, determinação de assumir riscos, e prontidão ao sacrifício em prol de liderar, proteger e prover comunidade. Todas as quais são possíveis somente através da morte e ressurreição de Jesus".

Por mais que John Piper se auto-explique, não deixa de ser estranho sentir tanta, digamos, "testosterona" em sua pregação, que talvez ficasse menos surpreendente de ouvir na boca de Mark Driscoll, acostumado que ele é à apologia da masculinidade e da "pureza" de lutadores suados e ensanguentados no octógono. Curioso que, depois dessa alocução, muita gente deve estar se questionando (sem qualquer ofensa ou duplo sentido) se não via e ouvia as pregações de John Piper com três características que são rotineiramente mais associadas à feminilidade: a delicadeza, a paixão e o amor. Justo ele de quem poderíamos dizer que "manifesta em todo lugar a fragrância do Seu conhecimento [de Deus]" (2ª Coríntios 2:14). Suspeito, entretanto, que Piper tenha tido outra motivação que merece ser discutida mais a fundo. Quando utiliza a expressão de que Deus se revelou na Bíblia como "rei" e não "rainha" ("queen" em inglês), ele está utilizando uma palavra, "queen", que já significou um eufemismo pejorativo associado aos homossexuais (também conhecidos jocosamente por "queers", sem falar nas "drag queens"). Talvez essa, digamos, masculinização excessiva ("machista", no popular) do evangelho pregado nos Estados Unidos (agora assumida por John Piper) tenha muito a ver, curiosamente, com o movimento gay e não com uma certa teologia feminista que teve dias melhores. Se esta ligação (por oposição) com a agenda gay for verdadeira, desconfio que as lideranças evangélicas, tanto nos Estados Unidos como no mundo, estão deixando a pregação cristocêntrica de lado e se envolvendo - por vontade própria, diga-se de passagem - numa disputa ideológica com elementos externos ao evangelho puro e simples da cruz, que fatalmente terminarão minando os seus esforços em levar o reino de Deus adiante. Quando gente como John Piper, conhecido por sua pregação bíblica e cristocêntrica, adere a esse movimento, talvez seja o caso de pensar melhor. Opor-se à agenda gay dentro dos estritos limites da convivência democrática é uma causa legítima. Deixar que ela dite a pauta da sua pregação é algo completamente diferente. Permitir o perigoso reducionismo do evangelho a questões de gênero ou trans-gênero representa o empobrecimento radical de uma preciosíssima mensagem radicalmente transformadora. Ainda bem que Deus não depende disso, senão o cristianismo estaria irremediavelmente perdido.



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Vaticano "condena" padre pedófilo a vida de oração

A notícia é da Folha:

Vaticano condena padre acusado de pedofilia "a uma vida de oração"

Um padre católico de Nova York acusado de ter abusado de uma dezena de adolescentes nos anos 1980 em uma escola no bairro do Harlem foi condenado pelo Vaticano "a uma vida de oração e penitência", confirmou nesta quinta-feira à Agência Efe um porta-voz da arquidiocese da cidade.

Wallace Harris, antigo pároco da Igreja de St. Charles Borromeo, no Harlem, está sob supervisão religiosa em uma residência do templo.

Antes de as denúncias terem vindo à tona, Harris era um dos padres mais conhecidos do Harlem e foi um dos principais organizadores da grande missa que o papa Bento 16 celebrou no estádio dos Yankees em 2008.

Meses depois da visita do papa a Nova York, o sacerdote foi afastado das funções depois que dois homens o acusaram de ter abusado deles em uma escola católica do Harlem na década de 1980.

Posteriormente, outras oito pessoas, inclusive um agente do Departamento de Polícia de Nova York, denunciaram Harris por abusos, mas a promotoria de Manhattan não chegou a apresentar acusações criminais contra ele porque os crimes já haveriam prescrito.

"Monsenhor Wallace Harris deveria ser afastado do sacerdócio pelo Vaticano", afirmou o sacerdote Robert Hoatson, conhecido por suas críticas à maneira como o Vaticano lidou com os casos de pedofilia.

Hoatson disse que as vítimas que tiveram a coragem de denunciar Harris "merecem algo mais" e, por isso, lamentou que o Vaticano envie à sociedade a mensagem de que nunca se responsabilizará por esses "desprezíveis" abusos, informa o jornal "Daily News".



Pastor de verdade não usa carro

O vídeo abaixo deixa no chinelo os pregadores da "teologia" do carro 0km na garagem...



P.S.: o caso das ovelhas perdidas aconteceu na Rússia e a dica é do Page Not Found.



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Quatro anos de blog e um funeral

Hoje não é um bom dia para comemorar o 4º aniversário do blog. Acabo de chegar do enterro de um amigo de infância, o Zé Augusto, que faleceu ontem aos 48 anos de idade, vítima de um mieloma múltiplo, uma espécie rara de câncer ósseo. Lembrei-me então de uma foto que tiramos exatos 40 anos atrás (vide abaixo), no 1º semestre de 1972, quando cursávamos o 3º ano do curso primário, como se chamava à época. Como a foto alegre denuncia, nela estão crianças felizes na faixa dos 8 anos de idade e na simplicidade de uma infância em que o bem maior era a amizade que as unia. O Zelão (como o chamávamos) era o último garoto sorridente agachado à direita, do meu lado. No funeral desta manhã, das crianças retratadas apenas o Reginaldo, o último agachado à esquerda, estava lá do meu lado. As lembranças, entretanto, continuam presentes. No mês passado, eu conversava com o Zelão e percebíamos o quanto aquela ligação antiga continuava viva. Brincávamos com o fato dele ser 3 dias mais velho que eu e, apesar da distância natural e temporária causada pelos caminhos diferentes que cada uma dessas crianças trilhou, conseguimos manter firmes e fortes os laços antigos. Poucos, entretanto, têm essa possibilidade e esse prazer de manter viva uma amizade de infância. Imagino que, depois de uma certa idade, muitos prefiram descartar todas as lembranças que os ligam a situações difíceis, especialmente da adolescência, e belas e valiosas histórias de vida se perdem nessa faxina emocional deletéria. Um funeral, 40 anos de uma foto e 4 anos do blog. Ainda que seja um fenômeno recente na história da humanidade, manter vivo um blog também é tarefa difícil. Requer amor, trabalho, carinho, desprendimento, renúncia às vezes. Mas tanto o blog, a infância e mesmo a morte jamais deixam de ser celebrações da vida, com todas as alegrias e dificuldades que ela nos apresenta. Se a morte marca o fim da existência terrena, apesar da tristeza e da saudade, os que ficam não podem perder a alegria de viver e deixar de celebrar tudo o que foi vivido antes da pessoa querida partir, encontrando nisso forças para seguir adiante. Prosseguir sempre, enquanto pudermos, é isto o que o blog e nós todos faremos, inclusive como homenagem aos que não tiveram tempo e oportunidade de nos acompanhar até aqui.




quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Cristo Redentor fora das Olimpíadas já em 2012

Quando o inverno de 2016 chegar, centenas, talvez milhares, de turistas, dirigentes e atletas cristãos, hindus, muçulmanos, ateus, etc., subirão ao Corcovado e farão questão de tirar a tradicional foto com os braços abertos aos pés da estátua do Cristo Redentor, símbolo soberano que paira sobre a cidade do Rio de Janeiro, que sediará os Jogos Olímpicos daquele ano. Mais do que um símbolo religioso, o monumento é um cartão postal não só do Rio, mas do Brasil, imediatamente reconhecido e associado com a cidade e o país. Entretanto, agências internacionais repercutem hoje a notícia de que ameaça ruir a iniciativa da Embratur em aproveitar as Olimpíadas de 2012, em Londres, e montar uma réplica do Cristo no elegante bairro de Primrose Hill. A proposta tem enfrentado resistências, muito mais relacionadas à perturbação da paz das mansões milionárias que ali se aninham na capital britânica do que propriamente por razões religiosas. Entretanto, essas últimas são sempre ventiladas quando se trata de representar o monumento cristão num mundo e num país em que, cada vez mais, as diferenças religiosas e os movimentos ateístas optam por bloquear qualquer situação em que uma determinada religião tenha lugar de destaque em relação às outras ou mesmo à falta de fé. Você acha que Richard Dawkins vai perder uma oportunidade de ouro dessas para "tacar pedras na cruz" (à sua maneira, é claro)? O Cristo Redentor, que tecnicamente pertence à Arquidiocese católica do Rio de Janeiro, já havia tido uma participação mínima nos vídeos promocionais da campanha carioca para conseguir a indicação em 2009, justamente para se afastar a polêmica desde o início, mas daqui em diante não há mais como evitá-la. Como mostrar o Rio de Janeiro e o Brasil ao mundo escondendo o seu principal monumento? O que fazer para que ninguém se sinta ofendido com a ostentação de um símbolo religioso incontornável? Essas são apenas algumas das questões que veremos o mundo esportivo discutir nos próximos anos. Enquanto isso o conhecido monumento carioca terá que experimentar a sua fase equilibrista de "balança, mas não cai". De qualquer maneira, dificilmente alguém perderá a oportunidade de tirar a clássica e acolhedora foto com os abraços abertos. Minha modéstia me leva a confessar, entretanto, que cometi um erro ao iniciar este texto: não existe inverno no Rio de Janeiro...




Internet assusta liderança mórmon

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, cujos membros são mais conhecidos como mórmons, imaginava que pudesse ser benéfica para a denominação a enorme exposição na mídia local e mundial acarretada pela presença de um forte pré-candidato à Presidência dos Estados Unidos, Mitt Romney, ex-governador do Estado de Massachussets (2002-2007). Independentemente do fato de Romney continuar sendo um forte candidato a obter a vaga na disputa pelo Partido Republicano, tendo vencido ontem as prévias no Estado da Flórida com 46% dos votos sobre os 32% do segundo colocado, Newt Gingrich, parece que os mórmons estão tendo que enfrentar alguns efeitos colaterais um tanto quanto inesperados. O receio dos líderes da religião é que a campanha renhida reforce o preocupante fenômeno de desfiliação crescente dos membros da igreja nos últimos anos, provocado sobretudo pela facilidade com que sua história, seus preceitos e dogmas são questionados na internet. Como a maior parte dos apoiadores do Partido Republicano é formada por evangélicos fundamentalistas, e eles não consideram os mórmons como evangélicos no sentido lato do termo, a tendência é que essa divulgação de pontos contrários à fé mórmon só faça aumentar conforme o tempo passa. O que é mais grave é que os Estados Unidos são não apenas o berço da religião como também o lugar onde se encontra o maior contingente de membros. Quando o caso é repercutido na imprensa de Salt Lake City, capital do Estado de Utah, fundado por mórmons e onde está a sua sede mundial, além de 60% da população ser filiada à igreja, isto significa que nuvens negras cobrem o famoso Templo da cidade. Em artigo publicado no jornal The Salt Lake Tribune, Peggy Fletcher Stak comenta, por exemplo, que um estudante mórmon, consultando a internet, soube que o fundador da religião, Joseph Smith, tinha várias esposas, tendo inclusive se casado com uma adolescente de 14 anos de idade. Outro missionário mórmon, preparando uma lição para a escola dominical, obteve a informação de que o Livro de Mórmon, texto-base da igreja e atualmente objeto de um musical de sucesso na Broadway, teria sido plagiado de outra obra. Assim, surpreendidos pelas informações que encontram facilmente online, como acusações de plágio a outro texto-base, "A Pérola de Grande Valor", e os 130 anos de banimento de negros da plena comunhão com a igreja, cada vez mais mórmons estão enfrentando uma crise de fé, tendo muitos chegado a se desfiliar da igreja por se sentirem traídos, e ao fazer isso passam para o lado dos adversários da religião. Isto se deve principalmente ao fato de que, até bem pouco tempo atrás, a única fonte de informação para os mórmons era a sua própria liderança, que determinava o que eles deveriam saber sobre sua história oficial. Por isso, Marlin Jensen, historiador e líder da igreja, foi designado como um dos responsáveis por responder a essas questões e tentar aplacar a ansiedade dos afiliados. Segundo declarou ao The Salt Lake Tribune, "nunca antes tínhamos enfrentado essa era da informação, com redes sociais e blogs publicando pontos de vista sem investigá-los adequadamente. A igreja está preocupada com a desinformação e informações distorcidas, mas estamos fazendo o nosso melhor e tentando duramente fazer com que a nossa história seja contada de maneira acurada". Ressaltando que polêmicas como a da poligamia não têm tanta ênfase "porque não são necessariamente pertinentes ao que se ensina no presente", Jensen salientou ainda que "a igreja não faz nenhum esforço para esconder ou obscurecer a sua história", razão pela qual quer reforçar a publicação online de dados históricos confiáveis sobre o seu passado. De qualquer maneira, não é nada fácil para um mórmon se desfiliar de sua religião, nem tanto pela decisão em si, mas pelo rompimento  brusco de laços familiares, profissionais e de amizade que essa atitude acarreta, sobretudo em Utah. Nessa altura do campeonato, parece não ser tão interessante assim que Mitt Romney vença as eleições primárias do Partido Republicano e assim se credencie para enfrentar o atual presidente Barack Obama no próximo dia 6 de novembro. Ficar debaixo da luz dos holofotes até lá não vai ser nada fácil...



terça-feira, 31 de janeiro de 2012

De Cat Stevens a Yusuf Islam

Existem histórias de vida pouco conhecidas das gerações mais jovens que parecem vir da ficção, como a do garoto britânico Stephen Demetre Gergiou, nascido em Londres em 1948, filho de pai greco-cipriota e mãe sueca, que mais tarde seria conhecido como cantor e compositor brilhante pelo nome artístico de Cat Stevens. Naquele caldeirão efervescente de grandes talentos da virada dos anos 60 para os 70, Cat Stevens era um dos gênios, compondo e cantando músicas belíssimas que são conhecidas até hoje. Em 1975, chegou a morar por três meses no Rio de Janeiro, e o Brasil era um lugar constante em suas viagens para se refugiar da fama e se inspirar no país (e na sua música) para recarregar o seu excepcional talento. Se a história tivesse parado por aí, já seria o suficiente para se apreciar uma das maiores obras musicais do século XX. Só que em 1977 Cat Stevens se converteu ao islamismo e abandonou a carreira. Isto numa época em que ser muçulmano era visto como algo estranho para um cristão ocidental, mas não havia toda essa aura de espanto pós-Bin Laden. Afinal, o supercampeão boxeador norteamericano Cassius Clay também havia se convertido ao Islã em 1975, e usava o nome Muhammad Ali desde 1964, pelo qual se tornou mais conhecido, mas isso era visto como um fenômeno típico da revolta afroamericana contra a secular repressão no país. Além disso, era comum ver ícones pop flertando com religiões exóticas para os ocidentais (da época) como budismo e hinduísmo. Entretanto, mesmo numa época recém-saída da sociedade alternativa dos anos 60, soava estranho que um tremendo talento inglês com essa história de vida se tornasse muçulmano da noite para o dia. Curiosamente, tudo teria começado em 1976 na praia de Malibu, na California (EUA), quando Cat Stevens teria ficado a um fio de morrer afogado durante um banho de mar, e teria prometido a Deus que - se Ele o salvasse - iria servi-lo daí em diante. Na sua narrativa, uma grande onda teria aparecido "do nada" em seguida e o levado até a praia, assim meio o profeta Jonas sendo expelido pelo grande peixe. A partir de então, procurou abrigo no budismo, numerologia, I Ching, etc., até que numa viagem de férias ao Marrocos, logo depois de ter visitado Ibiza, se encantou com o Aḏhān, o canto ritual muçulmano que convoca às orações diárias da religião. Chamou-lhe a atenção que - pela primeira vez na vida, segundo ele disse - ouvia uma música cantada diretamente para Deus. Em 1977 Cat Stevens se converteria oficialmente ao Islã e a partir de 1978 adotou o nome árabe de Yusuf Islam ("Yusuf" é uma das transliterações arábicas do nome "José"), o que lhe rendeu inclusive uma negativa de entrada nos Estados Unidos em 2004, provavelmente por outro Yusuf ou Youssef (ou outra forma de escrever o nome) estar na lista negra dos terroristas procurados pelas autoridades norteamericanas, problema que depois foi resolvido, não sem alguns incidentes diplomáticos com o Reino Unido. 


Apesar de seu líder espiritual na época da conversão (o imã da mesquita que frequentava) ter lhe dito que não havia problema em prosseguir na carreira musical desde que observasse os valores morais da religião, Yusuf Islam, com aquele rigor, determinação e desejo de romper com o passado, típicos dos novos convertidos, preferiu abandoná-la. Mesmo assim, seus álbuns continuaram vendendo aos milhões pelas décadas seguintes. Estimativas de 2007 davam conta de que ele continuava recebendo cerca de US$ 1,5 milhão ao ano em direitos autorais, isto porque em 2006 ele havia lançado um novo disco depois de décadas de ausência, mas sempre com o supremo cuidado de adequar sua nova música aos preceitos islâmicos. De qualquer maneira, seria praticamente impossível suplantar a qualidade de sua música anterior, fruto de um talento raríssimo que soube combinar, ainda muito jovem, belas letras com melodias da melhor qualidade. Sua canção mais conhecida talvez seja "Wild World", uma das mais belas composições musicais do gênero humano, que todo mundo conhece, mas pouca gente hoje se lembra que é dele. Abaixo, segue um vídeo de "Wild World" numa apresentação em 1971, em seguida outra mais recente da mesma canção com trechos em zulu, já como Yusuf Islam. Nesse segundo vídeo, afine seus ouvidos e perceba a finíssima delicadeza da melodia realçada pelo simples e belíssimo piano ao fundo (a partir de 1m30s). Coisa de gênio. Depois, mais algumas belas composições do insuperável Cat Stevens, obras-primas como "Father and Son", "Morning Has Broken", "Where do the Children Play" e "The First Cut is the Deepest", só pra citar algumas. Delicie-se:















segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O centenário de Francis Schaeffer

Se vivo fosse, o teólogo Francis Schaeffer completaria hoje exatos 100 anos de idade. Nascido no bairro de Germantown na Philadelphia, Pennsylvania, nos Estados Unidos, no dia 30 de janeiro de 1912, e falecido aos 72 anos de idade no dia 15 de maio de 1984, Schaeffer é pouco conhecido das gerações mais jovens de cristãos, mas até a sua morte exerceu enorme influência no cristianismo em todo o mundo, influência esta mais percebida entre os de origem protestante, mas que também foi sentida em menor escala nos outros ramos da religião. Em 1955, juntamente com sua esposa Edith, fundou a comunidade L'Abri ("o abrigo" em francês) na Suíça, instituição hoje presente em todo o mundo, inclusive no Brasil, em Belo Horizonte (MG). O L'Abri serviu para a sua época inicial, principalmente, como um ponto de encontro e discussão para jovens e líderes de todo o mundo que enfrentavam a ansiedade típica de seu tempo (do nosso também, é forçoso reconhecer) e buscavam respostas para conciliar a sua fé com os parâmetros relativistas da modernidade (com o perdão da aparente contradição no termo, já que parâmetros deveriam ser minimamente estáticos ou "absolutos", mas a pós-modernidade impõe parâmetros que mal duram um ano, ou um mês às vezes). Francis Schaeffer se viu, então, de certa maneira compelido a orquestrar uma reação cristã de raiz protestante às muitas influências que ameaçavam solapar a fé de tanta gente. Para atingir este objetivo, trabalhou basicamente em duas áreas principais: a apologética e a política. Na primeira, salientou a necessidade de se debater de maneira direta e contundente quando se tratava de defesa da fé. Na segunda, incentivou a participação política maciça dos cristãos para que assim influenciassem os destinos de sua nação e do mundo em geral. Seu livro "Um Manifesto Cristão" de 1981 era uma clara referência, já no título, ao Manifesto Comunista de 1848 e ao Manifesto Humanista de 1933 e 1973. O subtítulo da edição americana era suficientemente claro: "A crise moral da América e o que os cristãos devem fazer". Os títulos de outros livros seus, como "A Morte da Razão", "O Deus que se Revela", "O Deus que Intervém" e "Como Viveremos", revelam por si só como ele não se intimidava ao enfrentar as angústias de seu tempo. Talvez no tema do aborto se sinta a maior influência que ele teve em outras searas cristãs, como a Igreja Católica, já que advogava por uma militância anti-aborto tão ativa como a dos partidos políticos e movimentos feministas. Como você percebe, qualquer semelhança com o tema aborto levantado por religiosos nas últimas eleições presidenciais brasileiras não é mera coincidência, ainda que quase nenhum deles (provavelmente nenhum) soubesse que foi Francis Schaeffer que deu o pontapé inicial no jogo político dos evangélicos fundamentalistas, primeiro em seu país natal, e agora em todo o mundo. Por isso mesmo, ele é muito criticado por ter sido o precursor e incentivador desse movimento, sobretudo nos Estados Unidos, onde o Partido Republicano é dirigido pelo conservadorismo evangélico local. Muito provavelmente, Francis Schaeffer não tinha ideia de onde o seu ativismo político-religioso poderia desembocar, mas o convívio muito próximo com a direita fundamentalista norteamericana levou com que seu filho Frank Schaeffer, que havia participado de todas as iniciativas políticas de Francis, após a morte deste se afastasse do protestantismo e hoje ele professa a fé ortodoxa grega, além de combater as ideias dos políticos religiosos que beberam na fonte de seu pai. Frank escreveu inclusive uma espécie de autobiografia dessa época, intitulado "Crazy for God" ("Louco por Deus"), mas dando uma conotação diferente à frase do que aquela que você talvez imagine. De qualquer maneira, Francis Schaeffer deixou um legado muito importante para a Igreja que talvez ainda não tenha sido compreendido em toda a sua extensão e nas amplas teias de suas implicações. Vivemos tempos muito conturbados no último século, nos quais ainda estamos emaranhados, e talvez um dia possamos avaliar melhor a sua obra, inclusive naquilo que a acusam de politização excessiva ou extremismo conservador. Algumas questões poderiam ser levantadas desde já. Até que ponto, por exemplo, essa ênfase excessiva na política pode ser culpada pela bandalheira da prosperidade e do materialismo que vem assolando o meio evangélico nas últimas décadas? Em que medida o foco cristão na campanha ideológica pela normatização de preceitos morais pode ter descaracterizado, sublimado ou - pior - substituído a pregação pura e simples do evangelho da cruz de Cristo? Entretanto, se este blog aqui existe (como tantos outros ditos "apologéticos", diga-se de passagem) não deixa de ter o seu 0,01% de influência de Francis Schaeffer, já que o que procuramos fazer, de maneira equilibrada, responsável e descontraída, é defender a fé cristã, mas sem desprezar ou desrespeitar ninguém, na medida do possível, é claro, já que não somos perfeitos e nem sempre aquilo que se escreve é entendido da maneira correta, aquela pretendida pelo emissor da mensagem. Talvez tenha sido este o caso de Francis Schaeffer. Quem pode garantir o contrário? Apesar da data estar passando em branco no Brasil (ah! estava até agora!)- nem a editora que publica seus livros por aqui aproveitou a efeméride -, e com pouca repercussão pelo mundo afora, parabéns pelo centenário, Francis!






Governo de SP condenado por racismo em livro didático

Essa história é uma daquelas que - infelizmente - merece ser divulgada para que se perceba a terrível sutileza do racismo, e como ele consegue se perpetuar mediante a ideologia ensinada às crianças, penetrando subrepticiamente nas mentes dos baixinhos e se manifestando das maneiras mais inesperadas, como no caso noticiado pelo Brasil247 (vide abaixo). Permito-me discordar apenas do título da manchete. Ainda que tenha muitas discordâncias com o estilo Geraldo Alckmin de governar, não acho que ele seja pessoalmente responsável pelo absurdo cometido, como a manchete dá a entender, pois certamente nem sabia do que estava escrito no livro didático. Isso deve ser obra de mais um daqueles inúmeros assessores super úteis, pagos a peso de ouro, que encomendam coisas sabe-se lá a quem e dá nisso. Aí, sim, no quesito "gestão", em pelo menos saber escolher as pessoas certas para os postos-chave, o governador é responsável:

Governo Alckmin é condenado por racismo

Material distribuído por professora da rede pública a alunos associava a cor negra ao demônio; indenização será de R$ 54 mil à família que se sentiu atingida

Fernando Porfírio _247 - O governo paulista foi condenado por disseminar o medo e a discriminação racial dentro de sala de aula. A decisão é do Tribunal de Justiça que deu uma “dura” no poder público e condenou o Estado a pagar indenização de R$ 54 mil a uma família negra. De acordo com a corte de Justiça, a escola deve ser um ambiente de pluralidade e não de intolerância racial.

O Estado quedou-se calado e não recorreu da decisão como é comum em processos sobre dano moral. O juiz Marcos de Lima Porta, da 5ª Vara da Fazenda Pública, a quem cabe efetivar a decisão judicial e garantir o pagamento da indenização, deu prazo até 5 de abril para que o Estado dê início à execução da sentença.

O caso ocorreu na capital do Estado mais rico da Federação e num país que preza o Estado Democrático de Direito instituído há quase 24 anos pela Constituição Federal de 1988. Uma professora da 2ª série do ensino fundamental, de uma escola estadual pública, distribuiu material pedagógico supostamente discriminatório em relação aos negros.

De acordo com a decisão, a linguagem e conteúdo usados no texto são de discriminatórias e de mau gosto. Na redação – com o título “Uma família diferente” – lê-se: Era uma vez uma família que existia lá no céu. O pai era o sol, a mãe era a lua e os filhinhos eram as estrelas. Os avós eram os cometas e o irmão mais velho era o planeta terra. Um dia apareceu um demônio que era o buraco negro. O sol e as estrelinhas pegaram o buraco negro e bateram, bateram nele. O buraco negro foi embora e a família viveu feliz.

O exercício de sala de aula mandava o aluno criar um novo texto e inventar uma família, além de desenhar essa “família diferente”. Um dos textos apresentados ao processo foi escrito pela aluna Bianca, de sete anos. Chamava-se “Uma Família colorida” e foi assim descrito:

“Era uma vez uma família colorida. A mãe era a vermelha, o pai era o azul e os filhinhos eram o rosa. Havia um homem mau que era o preto. Um dia, o preto decidiu ir lá na casa colorida.Quando chegou lá, ele tentou roubar os rosinhas, mas aí apareceu o poderoso azul e chamou a família inteira para ajudar a bater no preto. O preto disse: - Não me batam, eu juro que nunca mais vou me atrever a colocar os pés aqui. Eu juro. E assim o azul soltou o preto e a família viveu feliz para sempre”.

A indenização, que terá de sair dos cofres públicos, havia sido estabelecida na primeira instância em R$ 10,2 mil para os pais do garoto e de R$ 5,1 mil para a criança, foi reformada. Por entender que o fato era “absolutamente grave”, o Tribunal paulista aumentou o valor do dano moral para R$ 54 mil – sendo R$ 27 mil para os pais e o mesmo montante para a criança.

De acordo com a 7ª Câmara de Direito Público, no caso levado ao Judiciário, o Estado paulista afrontou o princípio constitucional de repúdio ao racismo, de eliminação da discriminação racial, além de malferir os princípios constitucionais da igualdade e da dignidade da pessoa humana.

“Sem qualquer juízo sobre a existência de dolo ou má-fé, custa a crer que educadores do Estado de São Paulo, a quem se encarrega da formação espiritual e ética de milhares de crianças e futuros cidadãos, tenham permitido que se fizesse circular no ambiente pedagógico, que deve ser de promoção da igualdade e da dignidade humana, material de clara natureza preconceituosa, de modo a induzir, como induziu, basta ver o texto da pequena Bianca o medo e a discriminação em relação aos negros, reforçando, ainda mais, o sentimento de exclusão em relação aos diferentes”, afirmou o relator do recurso, desembargador Magalhães Coelho.

Segundo o relator, a discriminação racial está latente, “invisível muitas vezes aos olhares menos críticos e sensíveis”. De acordo com o desembargador Magalhães Coelho, o racismo está, sobretudo, na imagem estereotipada do negro na literatura escolar, onde não é cidadão, não tem história, nem heróis. Para o relator, ao contrário, é mau, violento, criminoso e está sempre em situações subalternas.

“Não é por outra razão que o texto referido nos autos induz as crianças, inocentes que são, à reprodução do discurso e das práticas discriminatórias”, afirmou Magalhães Coelho. “Não é a toa que o céu tem o sol, a lua, as estrelas e o buraco negro, que é o vilão da narrativa, nem que há “azuis poderosos”, “rosas delicados” e “pretos” agressores e ladrões”, completou.

O desembargador destacou que existe um passado no país que não é valorizado, que não está nos livros e, muito menos, se aprende nas escolas.

“Antes ao contrário, a pretexto de uma certa “democracia racial”, esconde-se a realidade cruel da discriminação, tão velada quanto violenta”, disse. Segundo Magalhães Coelho, na abstração dos conceitos, o negro, o preto, o judeu, o árabe, o nordestino são apenas adjetivos qualificativos da raça, cor ou região, sem qualquer conotação pejorativa.

“Há na ideologia dominante, falada pelo direito e seus agentes, uma enorme dificuldade em se admitir que há no Brasil, sim, resquícios de uma sociedade escravocrata e racista, cuja raiz se encontra nos processos históricos de exploração econômica, cujas estratégias de dominação incluem a supressão da história das classes oprimidas, na qual estão a maioria esmagadora dos negros brasileiros”, reconheceu e concluiu o desembargador.






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